Há um tempo atrás ouviu-se nos noticiários que alguns garotos morreram após ingerirem uma dose excessiva de esteróides anabolizantes de uso animal e, na ocasião, escrevi o texto que segue.
Fiquei me perguntando o que leva tantas pessoas a fazerem uma coisa dessas mesmo sabendo (ou às vezes não, como suponho seja o caso desses pobres coitados) os enormes riscos que correm. Podem contrair câncer, problemas nos rins e fígado, esterilidade ou até mesmo levar à morte quando a ingestão não é feita com o acompanhamento adequado. A Grécia antiga não influenciou a humanidade apenas na matemática, filosofia, arquitetura, etc, mas também foi quem iniciou o culto ao físico com o lema “citius, altius e fortius”, que significa “mais rápido, mais alto e mais forte”. Naquela época, o que os motivava era a necessidade de estarem preparados para a guerra, competições esportivas, além de ser uma forma de homenagear os deuses. Nos dias de hoje a principal motivação para o culto ao físico é bem diferente e a resposta para minha pergunta é: uma vontade desesperada de se tornar fisicamente atraente. A mídia sugere já há algum tempo um padrão de estética difícil de ser alcançado e mantido. Não basta ser saudável, tem que ser também atlético para ser apreciável e nem todos tem pré-disposição genética, ou tempo, ou seja lá o que for para atingir esse ideal de beleza. Quando assistimos aquela cena repetida já milhares de vezes ao longo dos anos em que o galã e a mocinha, belos, com seus corpos perfeitos, vivem uma grande história de amor felizes para sempre, é quase inevitável que, mais cedo ou mais tarde, você pense: "para ser feliz tenho que ser como eles". Este é um pensamento perigoso pois “felicidade” não é uma palavra qualquer e a esperança de alcançá-la representa a força motriz que nos impulsiona a continuarmos vivos e lutando. Após anos de lavagem cerebral que levou você associar felicidade com beleza, começa então a luta incessante, e às vezes insensata, para a metamorfose. A partir daí, o desfecho disso, tanto para os que conseguem seu objetivo como para aqueles que não conseguem é o mesmo - infelicidade. Aqueles que levam a vida com a idéia fixa em beleza exterior vão atrair para si outras pessoas com o mesmo ideal, vão se casar e, depois de algum tempo, perceber que não têm nada em comum. Provavelmente vão continuar juntos mesmo assim, pois pelo menos para satisfazer a vaidade de ambos a relação está servindo e irão começar a trair um ao outro na busca do que está de fato faltando, a verdadeira felicidade. Já para os que não conseguiram ficar como artistas o final, mais do que infeliz, pode até mesmo ser trágico. A insatisfação de saber que apesar de todos os seus esforços você nunca será como os “aceitos”, a crescente sensação de rejeição, de exclusão, de ser um perdedor vai corroendo aos poucos qualquer possibilidade de uma auto-estima saudável e aos poucos também vai extirpando da alma qualquer expectativa de alcançar a tão sonhada felicidade. A conseqûencia disso é a morte do sorriso, da fé nas pessoas, da luz interior. Apesar de escrever tudo isso sei de que nada vai adiantar como uma possível mudança na forma de pensar na cabeça de alguém. A verdade é que somos o que somos, às vezes terríveis ao valorizar demasiadamente a casca e esquecer do conteúdo, mas fruto da sociedade e de um mundo onde, de fato, beleza se põe à mesa!
Resolvi retomá-lo hoje e postar no blog depois que vi em dois blogs diferentes
( http://olhometro.com/2009/04/15/susan-boyles-e-o-segredo-para-a-felicidade/
e
http://www.interney.net/blogs/inagaki/)
comentários sobre o seguinte vídeo:
Resumidamente o que aconteceu é que uma tiazinha bem feinha inscreveu-se no American Idol inglês. Ela é toda estanhazinha, tem umas sobrancelhas grossas e disformes, um cabelo desgrenhado e é toda meio sem jeito, enfim, definitivamente não se encaixa – e nunca se encaixou – em algum padrão de beleza. Para ela a vida, principalmente na adolescência, não deve ter sido fácil. Acontece que quando começou a cantar foi um espanto. Era lindo o que saía dos seus lábios e todos por um instante esqueceram-se de sua aparência (e de que tinham zoado com ela momentos antes) e apenas deixaram a música fazer o que faz de melhor, encantar e nos fazer acreditar, no fundo de nosso ser, que somos sublimes e que algo especial nos espera.
Um dos blogs comenta que ela nunca teve namorado e que sofria de depressão. Ou seja, veja como foi difícil levar a vida que ela teve, punida a ter muitos momentos de infelicidade por não ter muitos atributos de beleza. Como a sociedade tem coragem de retribuir dessa maneira uma pessoa com um dom capaz de nos arrematar pelo estômago e nos proporcionar, por alguns minutos que seja, o sentido da vida? Talvez o mundo dos cegos como o do Saramago fosse um muito mais justo, onde invariavelmente a escuridão dos olhos reinaria para todos mas a luz dos bons seria mais facilmente percebida.
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